...Chegou com as últimas flores da primavera e as tênues brisas da estação, com o agradável e suave perfume dos jasmins, 
não se sabe de que exótica terra.

Sua estatura era mediana. Tinha um corpo esguio e um belo rosto,
 com olhos cor de mel, faces rosadas, longos cílios e uma  misteriosa auréola de bem-aventurança. 

Ninguém estranhou suas compridas vestes brancas e suas 
costas vergadas por asas alvas e longas.

Aproximava-se das pessoas com tal suavidade e candura, que elas imediatamente deixavam-se cativar e revezavam-se para usufruir 
de sua companhia.

Suas palavras eram de mel e vinho. Produziam um efeito mágico de
 euforia e prazer. Todos bebiam-nas sôfregos, como se tivessem 
passado muito tempo com sede .

Seu corpo etéreo produzia um calor suave e exalava uma fragrância celeste. Por isso, juntava multidões, que o seguiam, pacientes e
 sequiosas, incansáveis e exigentes, leais e intransigentes.

Falava de paz, união, amizade e amor.Respondia mansamente às perguntas incessantes, devolvendo-as, não raro, 
com outras perguntas.

Pouco se alimentava, pouco dormia: Velava.

Incansável, jorrava a fonte espontânea das sábias palavras, que
 tinham o poder de aproximar cada vez mais os humanos.

Leve como uma pluma, percorria a pé distâncias enormes , 
consolando e curando as dores de toda a gente..

Os cabelos loiros cintilavam à luz do dia, como trigo maduro e 
brilhavam à noite, como brilha uma estrela.

Viajantes chegavam de longe para conhecê-lo e tocar suas vestes.

Não tinha mais tempo para si, não se alimentava mais, não dormia,
 tantas eram as pessoas que dele precisavam....E continuou 
aconselhando, fazendo pequenos milagres invisíveis,deixando 
quase despercebidos os sinais de sua graça. 

Tamanha era sua bondade, que, do nascer ao por-de-sol consolava 
os aflitos, incutia-lhe pensamentos de fé, de perdão e esperança, 
deixando plenos de alegria e ternura todos os corações.

Porém, sua energia, aos poucos ía diminuindo, escasseando,
 esmaecendo, até deixá-lo completamente prostrado.

Seu último suspiro foi um alento a um menino de rua que lhe 
procurara, desesperado. 

Exaurido, prostrado e imóvel, mostrava agora um semblante
 pálido e cansado, cercado de orações, velas e lágrimas.

Tão absortas com seus problemas,somente agora é que todos
 viam as belas asas pendendo ao lado do corpo inerte, as plumas 
macias tocando a fria madeira. .

...E no ar pairava um leve perfume de jasmim... 

(Mirtes Sfredo Wicteky)

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